Guerra dos Sentidos 01
1.
— Comandante Lotte, o Rei Ingvar foi capturado! - noticiou um esbaforido jovem mensageiro de cabelos escuros, sujo de lama e fuligem ao entrar repentinamente na tenda.
Todos ao redor da mesa se calaram e olharam para Lotte Thorkenson, a Comandante do Exército de Maervegr com expectativa. À luz bruxuleante da fogueira, Lotte era ainda mais impressionante. Seus cabelos ruivo-dourados e sua pele branca eram uma continuação das chamas e sua armadura de ferro, repleta de marcas de batalhas bailava fluida no jogo de luz e sombra.
A guerra já durava quase dois anos. Ingvar invadira Maervegr em busca de mais terras. O rei afirmava que não tinha opção. Seus nove filhos são sua vida e eles exigiam mais campos, mais colheitas. Cada um deles teria seu reino, custe o que custar.
Lotte não demonstrou emoção. Refletiu por um instante, alheia aos olhares que recebia. A expectativa era que Ingvar fosse decapitado, como sinal de força da Rainha Anniken e, claro, de sua Comandante, Lotte. Invasores não receberiam clemência do Rainato de Balstad.
— Leve-me até o prisioneiro.
Lotte vestiu sua pesada capa de pele de urso e deixou o ambiente quente da tenda militar para sentir o gélido e úmido ar noturno do acampamento na caminhada até a prisão improvisada. Ela gostava do frio. Nascera nas montanhas. Para todo o lado, pessoas andavam apressadas carregando armas, munições, tochas, mantimentos, ferramentas e toda a sorte de utensílio de batalha. Por sobre o murmúrio das vozes dos soldados se podia ouvir vez ou outra o estrondo de uma explosão distante. A guerra não dorme.
O Rei Ingvar fora levado até uma tenda, cercada por seis guardas, que saudaram Lotte quando a viram. Lá dentro a comandante viu um sujeito grande, de barba e cabelos escuros, espessos, sujos e desgrenhados. Ele a olhou ferozmente e bradou.
— Vadia! Como acha que pode me prender? Meus filhos tomaram tudo o que é seu! E ai de você se tocar em um só deles! Essa terra será minha herança. A Dinastia Vaernes vai fincar suas raízes em Maervegr! — e cuspiu.
Lotte não deu atenção às bravatas e dirigindo-se a uma das guardas perguntou:
— Como ele está? Alguma ferida mais profunda?
— Não, Comandante. Alguns arranhões e cortes leves, somente.
— Então ele deve continuar assim. Levem-no para o castelo. Quero que o coloquem em um quarto com grades, mas não na prisão. Deem-lhe comida, vinho e deixem que se lave. Depois, deem-lhe roupas limpas.
Os subcomandantes e os demais presentes se olharam surpresos, mas ninguém iria contradizer Lotte.
— Acho que você não está entendendo, vadia! Eu não importo. Só o que importa são meus filhos. É a minha semente! Mate-me. Torture-me. Foda-se. Não ligo. Eu sei que eles ganharão a guerra ao final e que nenhum fio de cabelo deles será tocado.
A preocupação de Ingvar com os filhos era talvez o fato mais notório em seu reino. Pelo que se dizia, ele tivera um sonho profético no qual os deuses lhe teriam dito para proteger seus filhos a qualquer custo. Pelo que os deuses lhe revelaram, a morte de qualquer dos filhos desencadearia eventos que levariam ao fim da Dinastia Vaernes. E o rei vivera por sua família e por seus seus filhos. Cada um deles valia tudo. Por cada um deles valeria matar, morrer e tudo o mais. Cada um deles era um precioso presente divino a ser amado e protegido. Dos nove filhos, seis eram homens e cada um destes tinha seu próprio castelo com uma guarnição de leais soldados à disposição. As meninas seriam dadas em casamento quando chegassem à idade apropriada e garantiriam a ampliação do poder da família. Por ora, elas se encontravam no Castelo Haulgland, sob os cuidados da Rainha Vijje. Ingvar considerava os filhos uma dádiva divina, não importando se fossem seus com a rainha, com amantes ou com prostitutas. Todos eram sangue do seu sangue e de igual importância. Porém, conforme foram ficando mais velhos, o rei percebeu que haveria uma disputa entre eles pelas riquezas do reino e decidiu que era hora de ampliar as posses da Dinastia Vaernes. Os filhos, contudo, foram mantidos longe do campo de batalha, ainda que contra a própria vontade. Os três mais velhos escolheram um general para representá-los no campo de batalha e para os demais o próprio Ingvar escolheu soldados leais para fazer-lhes as vezes. Isolados e protegidos em suas fortalezas, os filhos do rei apenas aguardavam o desfecho da guerra para dividir os espólios.
Até ali, Ingvar tinha sido bem sucedido. Quatro reinos já haviam sido anexados a Skaknottr, o país vulcânico governado pela Dinastia Vaernes há séculos. Com os cofres cheios e ainda com mais cinco filhos, Ingvar voltou suas tropas para Maervegr, o próspero Rainato governado por Anniken Balstad. Tudo indicava que o país de modestas proporções, encravado entre as montanhas e o Mar de Take seria presa fácil para as falanges de Ingvar, mas até o momento, Lotte conseguira impedir a invasão, em uma surpreendente resistência.
A Comandante da Rainha contemplou o prisioneiro. Sob a armadura adornada com detalhes de chamas em bronze certamente havia um sujeito forte, na casa dos quarenta anos. O olhar raivoso emanava poder. Era alguém que não estava acostumado a perder, a ceder. Sobretudo, ele sabia que mais cedo ou mais tarde, seus generais conseguiriam atravessar as montanhas. Não importa o que aquela puta vestida de soldado fizesse.
Se Lotte percebeu o que se passava na mente de Ingvar, isso lhe foi indiferente.
— Tanja, venha comigo. Preciso que me ajude com os próximos passos - disse Lotte à sua ajudante de ordens — Estarei no castelo, se precisarem de mim. Mantenham o planejado e me avisem se algum dos generais tentar alguma loucura para salvar o Rei Ingvar.
Lotte montou em sua égua branca e seguiu rapidamente pela estrada enlameada ladeada de pela floresta negra até o castelo. Tinha um plano ousado em mente, mas precisaria da autorização da Rainha.
— É isso mesmo o que você quer, Comandante? Perdão, mas me parece um pedido estranho… E talvez um tanto complicado de conseguir…
Lotte foi compreensiva com a pequena insurreição de sua ajudante. Afinal, era realmente uma tarefa não usual a que ela lhe impusera. E, provavelmente, algo que nunca fora feito em um período de guerra. Mas, para cada batalha era necessária uma estratégia diferente. Cada desafio exigia uma abordagem própria. E ela sabia que tinha alguns meses, no máximo, até que as forças de Skaknottr atravessassem suas muralhas. Simplesmente não seria possível ganhar aquela batalha com espadas.
“É exatamente o que preciso, Tanja. Confio que seus contatos conseguirão o que lhe pedi. Use bem os recursos que te dei. Ofereça-os com parcimônia e justiça. Todavia, não use somente o dinheiro. Seja persuasiva. Eu sei que você é inteligente e tem bons argumentos. Você sempre consegue o que quer. Eu não confiaria essa tarefa a mais ninguém. Mas seja rápida. Preciso de tudo pronto em, exatamente, duas luas.
Com essas palavras, ela despachou Tanja com ordens detalhadas do que deveria fazer e retornar tão logo fosse possível. Depois foi ter com a Rainha Anniken. Não se demoraria ali.
As guardas do lado de fora da porta somente ouviram a Rainha gritando, descontente. Alguns momentos depois, porém, mudou o tom de voz para um mais calmo, provavelmente ouvindo sua Comandante. Ao final, parece ter cedido ao plano de Lotte, que saiu com o característico olhar determinado do quarto, deixando Anniken com expressão aflita para trás.
Agora era com ela.
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